Project Description
Acho que foi a primeira vez que senti realmente medo.
No passado, mesmo com grandes, gigantes desafios sempre tive a convicção: “eu resolvo, só ainda não sei como!”, “eu encontro o caminho!” e, mesmo no que não podia intervir ou controlar, alterava-me a mim, alterava o meu estado, flexibilizava-me.
Desta vez foi diferente. Uma sensação avassaladora de medo, de não ter chão nem paredes, nem tecto para me agarrar ou servir de referência.
Achava eu que me tinha especializado em desafios. E agora com este… zás! Caíra por terra o habitual optimismo, a confiança do costume e mesmo a alegria se tinha ido. Foi como, estando habituada à cidade, onde tudo está previsto e obedece a alguma regra, me tivessem despejado no meio da selva, rodeada de animais perigosos, sem ter a mínima ideia de como fazer, de como me proteger, onde focar a atenção. De repente fiquei paralisada e apetecia-me fugir ou lutar com o que me assustava sem, no entanto, saber como o poderia fazer.
Lembrei-me do que costumava dizer: um problema demora, quase sempre, poucos minutos, tudo o resto somos nós a aprender a lidar com ele e depois a lidar com ele, a seguir em frente.
Comecei a tratar as restantes partes da vida como pude, não as contaminando com este medo que me bloqueava as articulações dos braços e das pernas e me dava dores quase permanentes. Percebi que não havia nada que eu pudesse fazer que ainda não tivesse sido feito.
Senti-me sem escola, sem mestre, sem túnel nem proverbial luz no seu final. Até que, num momento em que apenas respirava, me sentia e tentava sentir que emoções estavam por cá a passear, percebi que não precisava de nada mais. De mais nenhuma aprendizagem, conceito ou inspiração. Apenas precisava de aceitar que as novas circunstâncias eram como um tapete novo. Cobriam o chão e seria agora em cima deste novo chão que andaria. Assim, sem mais nada, por cima do novo chão tudo é igual: o azul do céu, o som do mar, o calor da brisa morna, o brilho do sol, só o chão é uma novidade, tudo o resto, é a vida a acontecer, como de costume.
Nos momentos de grandes desafios e, neste em particular, pratico a gratidão pelo que sou, pelo que tenho, e por toda a aprendizagem que a vida me oferece e que eu escolho aceitar.
Se preferia não ter alguns desafios? Verdade, preferia!
Estes são os meus desafios, a minha vida é com eles, integro-os e neste processo cresço e aprendo que, ao mesmo tempo que o que sei, comparado com as infinitas possibilidades da vida, é nada, o meu coração sabe tudo o que é preciso saber.