Project Description
Hoje reposto um texto longo, mais antigo, porque me lembrei dele e porque o que aprendi naquela fase é fundamental, ainda hoje, para me ajudar a “ver” melhor, aqui vai:
Há uns anos, num determinado dia, antes de uma das muitas viagens que fazia em trabalho acordei e via “diferente”. Via de forma “esquisita” e por mais que eu esfregasse os olhos, que eu me visse ao espelho, não conseguia perceber o que se estava a passar. Mesmo com a sensação estranha de não estar a ver bem (embora não conseguisse descrever o que se passava com a visão) lá me meti à estrada.
Na estrada percebi que tinha deixado de ver traços rectos, agora tinham sempre uma barriga no local onde pousava a atenção e as placas da autoestrada eram completamente ilegíveis. Guiava-me pelo senhor do GPS que diligentemente me dava instruções: “saída à direita à frente”, “saia na 3ª saída”, e lá continuei essa primeira viagem depois de ter começado a ver “esquisito”.
No dia seguinte fui a um oftalmologista que, numa primeira análise, ainda sem diagnóstico confirmado me referiu que se fosse o que ele estava a pensar que era, eu iria ficar sem ver. Fiz vários exames e o diagnóstico chegou: degeneração da mácula, confirmava-se um dos diagnósticos maus possíveis a que o médico se referiu na primeira consulta.
Parecia-me possível que o médico se tivesse enganado e que encontraria um oftalmologista que me diria: -fazemos o procedimento “x” e isso trata-se… Nesta altura, 6 pessoas cegaram no Hospital de Santa Maria por lhes ter sido administrada uma injecção desadequada aos casos que pretendiam tratar e o oftalmologista que me acompanhava disse-me que a única coisa que me poderia eventualmente ajudar a voltar a ver linhas rectas seria levar injecções no globo ocular. Não eram as que tinham sido administradas no Hospital de Santa Maria, não havia garantia de melhorar, havia sim a garantia de a degeneração continuar o seu caminho embora pudesse eventualmente travar a visão curva das rectas.
A minha visão piorava de dia para dia. Continuava a conduzir de dia, de noite não via. Houve umas 2 ou 3 vezes em que me atrasei a regressar a casa com os meus filhos e já ao escurecer foram eles que me orientaram, “cuidado, olha o passeio”, “abranda, vamos virar à direita”, até chegar a casa e estacionar alagada em suor do medo que tinha sentido. Na altura, nem pensei no perigo em que estava a colocar os meus filhos de tão focada que estava em lhes transmitir calma e segurança.
Consultei mais de 10 oftalmologistas, fiz dezenas de exames, uns iguais, outros diferentes, uns invasivos e dolorosos, outros nem por isso. Neste percurso cheguei a ter trinta por cento de visão num dos olhos e continuei a viver e a não conduzir à noite ou a ver filmes em 3D pois a única coisa que via era uma tela preta com umas zonas menos escuras.
Experimentei muitas, mesmo muitas abordagens alternativas. Aprofundei muito o meu conhecimento sobre mim própria. Procurei a mensagem escondida nos sintomas, aceitei quase todas as propostas de tratamento que me iam aparecendo, excepto as injecções apesar de por três vezes as ter marcado. Da primeira vez, o médico esqueceu-se e não apareceu. Da segunda, vez o seguro não autorizou a tempo o pagamento (cada injecção custava mais de dois mil euros e o protocolo mínimo era de 4 injecções espaçadas de poucas semanas, já não me lembro quantas). Da terceira vez… bem, da terceira vez entrei na clínica e voltei para trás convicta de que ia melhorar e recuperar a visão, embora não soubesse bem como isso iria acontecer.
Foram três anos em que via cada vez pior e à medida que isso acontecia, focava-me mais em aceitar, em procurar alternativas para resolver os meus desafios, em perceber o que se estava a passar e o que significaria…
Um dia, deitada na cama, percebi que o cabo que suspendia o candeeiro no tecto do quarto já não tinha uma barriga. O rebordo do espelho voltara a ser recto, os traços contínuos e os traços descontínuos eram todos rectos. Os pauzinhos dos gelados, rectos. As janelas, rectas. O rectrovisor, recto. Nunca antes gostei tanto de rectas. Nesse dia celebrei as rectas, feliz por terem regressado, sem no entanto sentir surpresa. Depois comecei a melhorar, a ver melhor e melhor, a conduzir de noite (embora às vezes ainda evite, não sei se por ter ficado essa marca, se por de facto ainda ver a noite um pouco mais escura) e regressei ao médico inicial que ao me observar os olhos, leu e releu a minha ficha (já não se lembrava de mim) e disse-me: “que engraçado… esta ficha tem o seu nome mas não é sua. É de algum paciente meu com degeneração da mácula. Vamos fazer uma ficha nova, pode ser que a sua apareça…” Não comentei, não me surpreendi, não disse ao médico que um dos tratamentos que tinha feito consistia em andar com um íman colado com fita adesiva na testa, nem que me estudei, nem que procurei o significado para além do significado do que tinha acontecido… Não fiz nada disto porque aconteceu o que tinha que acontecer e porque as coisas são o que são, nada mais.
Agora, à distância questiono-me sobre que aprendizagem retiro do que aconteceu e confirmo: “As coisas são o que são, os meus desafios são os meus desafios e eu tenho todos os recursos de que necessito (seja qual for o significado que escolho dar a “ultrapassar desafios”).
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