Project Description
Era miúda, tinha o pé chato umas botas ortopédicas torturantes e gostava de andar de bicicleta, correr e saltar. Andava sempre com os joelhos esfolados e nódoas negras por todo o lado e mesmo assim preferia continuar a não ter mazelas. O pior momento era o do curativo do dia seguinte quando a esfoladela era grande. A gaze do penso ficava colada à ferida e era preciso tirá-la descolando-a, desinfectar e voltar a colocar nova gaze sem saber se ainda ia voltar a colar ou não. Doía que se fartava!
Mesmo com dor, com o arranque da gaze preferia tudo e correr o risco a ficar parada e nunca mais passar pela fase do penso porque a boa sensação era maior do que a dor do risco. Até porque mais cedo ou mais tarde vem a fase da crosta e o sofrimento acaba, a ferida fica ao ar e é mais uma medalha por feitos realizados do que um lembrete de dor.
Este padrão pode-se manter ao longo da vida. Temos relações amorosas, de amizade ou mesmo de trabalho, nem todas correram bem e, mesmo assim, mesmo com a dor do fim preferimos voltar a ter a sensação de nos apaixonarmos, de fazer novos amigos ou de encontrar uma nova equipa de trabalho do que ficar nas águas mornas da existência sabendo que podemos voltar a sentir dor.
Nem sempre o padrão é mantido. Às vezes, a experiência de dor foi tão forte que não queremos voltar a passar por ela e por isso deixamos de viver uma fatia de vida com medo de que volte a doer. Pode passar mesmo a fazer mais sentido manter indefinidamente a fase da muda do penso por toda a vida toda, ter essa pequena dor de despegar a gaze do que correr o risco de cair e ter a dor da queda de novo. Tendo um ou mais enfermeiros, que carinhosamente ou menos carinhosamente, mudam o penso e com quem o contacto é mantido, pode-se encontrar nesse acto de ser cuidado um substituto para o que podia ser uma vida plena.
Acreditando ou não na possibilidade de viver mais vidas, apenas aquela que estamos a viver é importante. Às vezes o medo é tanto que é necessária ajuda para quebrarmos o ciclo e voltar a ser responsável a sério pela própria felicidade, pela vida. Depois de voltar a apanhar o jeito é fácil, é como andar de bicicleta, o risco não desaparece mas volta a estar presente a sensação de estar MESMO vivo e essa nunca se esquece.